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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Fernando Amorim, você está presente!

Por Lejeune Mirhan*

Faleceu na noite de ontem o camarada Fernando Antônio Sampaio de Amorim. Antigo e histórico comunista era engenheiro e professor da Universidade Federal do rio de Janeiro. Difícil escrever no calor da emoção, em especial pela falta política e humana que ele nos fará, relato aqui um pouco da minha convivência com o camarada Amorim.

Trajetória comunista

Fernando ingressou no curso de engenharia naval da UFRJ nos idos de 1973, no auge da ditadura militar, então com quase vinte anos (ele completaria 59 anos em novembro próximo). Formou-se na Universidade em 1977, tendo sido admito como seu professor no mesmo curso em 1980. Tinha, portanto 32 anos de docência no ensino superior público e federal. Ingressa nessa mesma época no antigo PCB. Faria no próximo ano 40 anos de militância comunista.

Concluiu na UFRJ seu mestrado em 1983. Com intensa militância comunista, sindical – foi diretor do ANDES, mas fez oposição em várias diretorias, como veremos a seguir – acabou por concluir seu doutorado apenas em 1997, sempre na área de engenharia e arquitetura naval, da qual era um dos mais renomados especialistas.

Divergindo intensamente com os rumos equivocados que o seu velho Partidão havia tomado, fazendo oposição ao governo do presidente Lula em seu primeiro mandato, Fernando toma a lúcida decisão, com dezenas de outros camaradas, de ingressar no PCdoB. Sua ficha de filiação ao Partido é data de 1 de junho de 2003. No entanto, de forma que considero justa, ele me disse várias vezes quando falávamos de seu tempo de Partido que tínhamos que mudar a nossa forma de registrar tempo de partido e tempo de ser comunista. Em tom de brincadeira – mas falando com propriedade – ele dizia que queria averbar seu tempo anterior de PCB no tempo de PCdoB. Muita justa a reivindicação.

Fernando integrava o Comitê Municipal do Partido no Rio de Janeiro. A sua intensa vida acadêmica e sindical o impedia de dedicar-se mais tempo às tarefas específicas de dirigir Partido.

Conhecia a atuação do camarada desde que ingressei na SSN/CC em 2007. No entanto, só fui relacionar-me mais diretamente com ele a partir da instalação da fração Nacional dos Comunistas Professores de Universidades Federais. Isso ocorreu em fevereiro de 2011. Éramos nove camaradas presentes de vários e Fernando foi eleito, por unanimidade, coordenador geral, com Remi Castioni, da UnB, coordenador-adjunto (deve assumir a coordenação geral agora).

Nesses 18 meses de convivência, nos vimos muitas vezes pessoalmente. Em reuniões de fração, em eventos partidários. Falávamos amiúde por telefone, pelas minhas tarefas que tinha de acompanhar essa FN na esfera da Secretaria Sindical. Nunca tive dúvidas sobre a capacidade do Fernando. E disse isso em vida. Para ele e para vários camaradas de convivência comum. Fernando era quadro de nível de Comitê Central. Pela sua compreensão do marxismo-leninismo. Pela sua compreensão da linha tática e estratégica dos comunistas do PCdoB. Pela sua aplicação de nossa linha sindical justa, ampla. O espectro de forças políticas, o arco de alianças, era das coisas que mais o preocupavam.

Nos últimos meses, Fernando estava submetido a uma intensa pressão. Se por um lado era um dos principais negociadores com o governo federal por ser vice-presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Professores Federais, ele era um dos que mais combatia os rumos do que o Sindicato chamado ANDES esta tentando imprimir ao movimento sindical docente. Escreveu diversos artigos nos seus últimos dias de vida. Chamava a greve dos professores federais de “revê do fim do mundo”. Afirmava que qualquer que fosse a proposta que o governo fizesse, mesmo atendendo todas ou quase todas as reivindicações dos professores como aliás o fez com a última proposta – a greve seguiria até a morte. Até porque a greve é para desgastar o governo da presidente Dilma e não para atender as reivindicações justas e legitimas dos docentes.

A morte na semana retrasada do professor Aloísio Teixeira, seu companheiro de UFRJ e ex-reitor da Universidade. Fernando dizia-me que Aloísio se filiaria em breve ao Partido. Infelizmente, não deu tempo. Nunca me esqueço uma vez quando ele me levava ao aeroporto do Galeão no Rio já tarde da noite, quando estava nessa cidade em tarefas partidárias, que uma das suas prioridades como membro do Conselho Universitário da UFRJ era que essa instituição acadêmica aceitasse as notas do ENEM como parte da condição de ingresso. E isso, naquele dia havia sido aprovado, motivo que foi comemorado pelo então reitor, Aloísio, com quem eu havia estado durante o dia.

Lembro-me que quando instalamos a FN dos Professores (as) Federais, haviam apenas uns 15 professores identificados como comunistas do PCdoB. Alguns já antigos. Nesses 18 meses de atuação, não só a FN identificou, nucleou e mesmo filiou outros tantos, que hoje a força comunista já soma mais de 130 camaradas docentes federais e de institutos federais de ensino. Os comunistas, sob a coordenação de Fernando e Remi, influenciam quase uma dezena de associações e sindicatos docentes e somam um terço da direção nacional da recém-criada Federação Nacional, que é racha do ANDES.

O Fernando Amorim Acadêmico

Nunca tive dúvidas das dificuldades de mantermos a militância política, sindical e partidária e ao mesmo tempo manter uma elevada produção acadêmica. Pois Fernando nunca descuidou disso. Sem deixar de lado sua militância comunista, Fernando em 1985 já tinha sido vice-reitor de Patrimônio e Finanças da UFRJ na gestão do velho professor e comunista Horácio Macedo.

Sua produção acadêmica na área de sua especialidade – engenharia naval – consta 35 trabalhos científicos publicados em periódicos indexados no Brasil e no exterior, além de capítulos em livros. Ajudou a formar diversos mestres e doutores em sua área. São dezenas de informes e comunicações em congressos científicos da engenharia naval aqui e fora do Brasil.

Na atualidade, Fernando participava de uma rede de Capacitação Técnica para o Desenvolvimento da Construção Naval no RJ, da qual sempre foi um entusiasta e percebia que os governos Lula e Dilma deram apoio decisivo para isso.

Combinando o seu saber técnico e científico e sua militância, Fernando era professor do Colégio Municipal de Pescadores da cidade de Macaé. Mas, mais do que isso. Foi entusiasta e fundador do Colégio Politécnico da UFRJ em Cabo Frio, onde ministrava aulas e hoje, nesta sexta-feira, dia 3 de agosto, daria aulas inclusive. Essas suas tarefas em Macaé e Cabo Frio, além, claro, das na cidade do Rio de Janeiro, tiravam-lhe mobilidade para viagens à serviço do movimento sindical docente e mesmo para o Partido. Mas, ele procurava sempre conciliar as coisas, equilibrar atividades.

Fernando estava envolvido num grande projeto de sua paixão, que era o mar e suas embarcações. Estava organizando a criação, na Ilha do Fundão, de um Museu da Ciência e da Cultura do Mar. Veja que interessante. Ao mesmo tempo um museu que contava a história das embarcações e das navegações do ponto de vista científico, ao mesmo tempo resgatava o que ele chamava de “cultura do mar”. Como na inesquecível música da Dorival Caimi, “é doce morrer no mar, mas ondas verdes do mar...” (a qual escuto neste momento para lembrar de Fernando).

Fernando tocava outro projeto estratégico, que levava o pomposo nome de “Embarcações com Propulsão Elétrica Alimentada por Paineis Solares”. Eu, que fiz três anos de engenharia antes de me tornar sociólogo, compreendo a dimensão desse projeto. Libertaria todas as embarcações do mar da dependência de combustível fóssil e garantiria a elas ampla autonomia energética. Esperemos que a perda de Fernando não interrompa esse estratégico projeto.

Fernando era Professor Associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua experiência na área de Engenharia Naval e Oceânica tinha ênfase em Projetos de Navios, pequenas embarcações e sistemas oceânicos. Chefiava o Laboratório de Arquitetura Naval e coordena os Programas Polo Náutico da UFRJ e Núcleo Interdisciplinar UFRJ Mar.

Fernando atuava também em Tecnologia de Projeto e Construção de Pequenas embarcações, metodologias de projeto e planejamento, modelos de projeto, e metodologia de ensino de projeto, educação em engenharia e educação e trabalho.

Fernando ficará em nossas memórias e nossas lembranças. Tal qual Lênin dizia que não seria possível uma prática revolucionária sem teoria revolucionária, seguiremos nos inspirando no camarada militante comunista, intelectual, produtor de saber, acadêmico, mas um abnegado militante comunista pela profunda transformação de nossa sociedade e das nossas universidades, onde ele passou quase 40 anos de sua curta, mas profícua vida. Fernando, você esta presente!

* Sociólogo, escritor e arabista. Foi professor de Sociologia da Unimep entre 1986 e 2006. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos de SP de 2007 a 2010. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br.

3 de Agosto de 2012 - 15h21

Uma carta ao camarada "Fernandão"

O professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e militante do movimento docente Fernando Amorim, fundador do Proifes, morreu na noite de quinta-feira (2), após sofrer um infarte. Abaixo, uma carta publicada pelo professor e pesquisador Remi Castioni, da Universidade de Brasília (UnB).

Comunicamos com grande pesar o falecimento nessa noite do camarada Fernando Amorim, da UFRJ. Fernandão como era chamado por nós do movimento docente deixa um enorme vazio entre nós.

Coordenador da Fração dos professores comunistas das universidades e institutos federais, Fernandão tinha solução para tudo. Engenheiro de formação, do curso de engenharia naval, parecia se inspirar no horizonte do oceano e antevia com acuidade o caminho seguro a prosseguir.

Nesse pouco mais de dois anos que tive a oportunidade e o privilégio de conviver, às vezes, quase que diariamente, em contato telefônico ou presencialmente aqui em Brasilia, nas reuniões do Proifes, só tenho a dizer nesse momento, que perdemos um grande quadro. Entendia como poucos o ritmo da universidade. Recentemente ao comentar numa reunião do Proifes sobre um dos pontos da negociação, a que trouxe para dentro da carreira o cargo isolado de professor titular, fez grande homenagem aos professores comunistas, em particular, ao Horácio Macedo, da UFRJ, o qual como tantos comunistas, nunca conseguiram ascender a esse cargo porque o reacionarismo e a perseguição na universidade isolavam o mérito em favor do compadrio. Somente lendo a história para entender as circunstâncias sombrias que levaram a Reforma de 1968 a trucidar o cargo de professor catedrático e a de criar o de titular como cargo isolado do magistério superior. Fernandão sabia como poucos esse movimento, as pessoas preteridas, os preferidos pelo regime, os motivos que levaram a criar o cargo.

Também é dele o rótulo que em algumas mensagens circulamos aqui de "vanguarda do atraso". Fernandão lutava no Conselho Universitário, da UFRJ, representando os professores associados e enfrentava esse movimento desqualificado e descomprometido pequeno burguês dos "ditos" novos revolucionários.

Sua incansável luta em favor da educação via nesses grupos o manto do conservadorismo na universidade, daqueles que tentam restringir o acesso da população a universidade. Foi assim quando lutou bravamente para utilizar o Enem NEM como forma de acesso a UFRJ, contra os que diziam que isso ia acabar com a Universidade. Da mesma forma sua defesa da expansão da universidade, sua paixão pelo ensino e sua luta incessante para ligar a educação básica com a educação superior o levou a criar o Colégio Politécnico da UFRJ. Iniciativa impensável para uma universidade, mas que com sua dedicação funcionava e atendia professores da rede municipal e jovens do ensino médio na cidade de Cabo Frio.

Quando apresentei a ele no mês de junho, na reta final de tramitação do Plano Nacional da Educação (PNE), na Comissão Especial da Câmara, a proposta de tratar os gastos em educação como investimento e, portanto, fora da meta do superávit primário me dizia que fariamos história. Eu não acreditei muito nisso, mas pude conferir depois que a proposta deu um nó no Plenário da Comissão de Orçamento e Finanças do Congresso. E por pouco não foi aprovada. Dizia-me que tinhamos dado a solução para fazer o gasto em educação crescer e tratá-lo como investimento, portanto, por fora do limite constitucional.

Sua entrada no Fórum Nacional de Educação, representando o Proifes e que prepara a próxima Conferência Nacional de Educação deu outro ritmo a essa instância. Lá também sua presença será sentida.

Tinha também grande preocupação com o partido. Nesse processo de expansão estava muito determinado a melhorar a forma da nossa intervenção.

Poderia enumerar várias das suas qualidades e seu compromisso com a educação, mas fico por aqui. Tal como o ex- reitor Aloisio Teixeira, morto na semana passada, vai deixar muitas saudades, mas como ele constumava dizer "é vida que segue".

Para nós será também enorme desafio substituí-lo, principalmente, nesse momento em que estamos saindo de uma greve muito divididos, mas com enorme saldo político. Isso vale tanto para a nossa Fração como para o próprio Proifes.

Só tenho a dizer nessa despedida obrigado Fernandão por nos mostrar que é possível sonhar e concretizar nossas ideias e colocá-las a favor dos que precisam.

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