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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Al-Qaeda já agia sem comando de Bin Laden

Morte de saudita tira arma de propaganda, mas não capacidade operacional do grupo.

Ayman al-Zawahiri

Com Osama bin Laden fora de cena, cresce o debate sobre o futuro da organização que ele fundou e liderou por duas décadas, a Al-Qaeda. Para analistas, a ideologia irradiada pelo grupo a radicais de todo o mundo perde força sem a figura carismática do líder. No entanto, a morte do saudita, que já estava afastado do comando operacional da Al-Qaeda, teria pouco impacto na capacidade militar da organização.

O primeiro na linha de sucessão da rede terrorista é o egípcio Ayman al-Zawahiri. Ex-integrante da Irmandade Muçulmana, Zawahiri é o principal teórico da Al-Qaeda e, segundo os EUA, teria proposto a Bin Laden os ataques de 11 de Setembro. Além de "vice" do grupo, ele é também o número 2 na lista dos mais procurados do governo americano e estaria em território afegão.

Há ainda outras figuras importantes no "segundo escalão" da rede montada por Bin Laden. Khalid al-Habib é considerado um dos comandantes da rede terrorista no território afegão. No Norte da África, Abou Mossab Abdelwadoud comanda a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, enquanto Nasser al-Wuhayshi teria o mesmo posto na Al-Qaeda da Península Arábica. O americano Adam Gadahn é um dos chefes da rede na Somália.

Segundo interrogatórios feitos na base americana de Guantánamo, divulgados há duas semanas pelo site WikiLeaks, Bin Laden passou o comando da Al-Qaeda a um conselho de jihadistas logo após o 11 de Setembro. A decisão teria sido tomada antes de ele se esconder nas montanhas de Tora Bora.

Para o analista Max Boot, do centro de pesquisa Council on Foreign Relations, de Washington, as "filiais regionais" da Al-Qaeda no Norte da África e no Oriente Médio já operavam de forma independente em relação a Bin Laden. "Sua morte é uma derrota simbólica, mas não fatal para a rede islâmica. No máximo, poderá levar ao declínio da Al-Qaeda e à emergência de outras organizações concorrentes."

Boot afirma que grupos como o Lashkar-i-Taiba, responsável pelos atentados de 2008 em Mumbai, ou o Taleban paquistanês, acusado de matar a ex-premiê Benazir Bhutto, em 2007, podem tentar preencher o espaço antes ocupado pela Al-Qaeda.

O jornalista britânico Jason Burke, autor de Al-Qaeda: a verdadeira história do radicalismo islâmico (Editora Jorge Zahar), concorda com a avaliação de Boot. Segundo ele, a Al-Qaeda foi criada para ser um "guarda-chuva" capaz de concentrar grupos radicais jihadistas que atuavam no mundo árabe nos anos 90.

"Isso funcionou por algum tempo, mas as principais organizações regionais - Al-Qaeda na Península Arábica, Al-Qaeda no Magreb e Al-Qaeda no Iraque - são independentes da liderança central", diz Burke. De acordo com ele, essas organizações tinham "raízes em aspectos locais e históricos específicos". "A aliança delas com a Al-Qaeda era, geralmente, uma questão semântica."

No entanto, o que fez de Bin Laden uma marca na política internacional foi menos sua capacidade militar e mais a habilidade do saudita em espalhar a mensagem do terror islâmico pelo mundo. Nesse aspecto, dizem especialistas, a morte do líder representa um importante revés para a Al-Qaeda.

Guerra de ideias. "O maior sucesso de Bin Laden foi fazer sua interpretação do Islã radical mundialmente conhecida", afirma Burke. Ele explica que, nos anos 90, havia outras formas de pensamento fundamentalista islâmico, mas, por meio da propaganda, o militante saudita conseguiu tornar a sua versão "dominante", criando uma "subcultura jihadista".

O psiquiatra forense Marc Sageman, que trabalhou na estação da CIA no Paquistão nos anos 80, afirma que a Al-Qaeda deixou de ser uma organização centralizada após os atentados do 11 de Setembro para se transformar em uma "fonte de inspiração" a radicais islâmicos, de bairros sunitas em Bagdá a cibercafés em Manchester.

Os atentados de Madri, em 2004, e de Londres, em 2005, cometidos por muçulmanos com cidadania europeia que nunca tiveram contato com a cúpula da rede de Bin Laden, seriam exemplos do novo papel da Al-Qaeda. O nome do livro de Sageman resume sua teoria: Leaderless Jihad ("Jihad sem líder", em tradução livre).

O analista Heni Ozi Cukier, da faculdade ESPM, de São Paulo, afirma que as questões ideológicas e operacionais do grupo terrorista não podem ser separadas. "Quem dá o poder à ideologia é a base, a organização", explica. "Os vídeos da Al-Qaeda distribuídos na internet tinham lições de islamismo, mas também de como montar uma bomba."

Fonte: AFP, NYT e Efe - O Estado de S.Paulo








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